quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Delicadeza, essa sumida!



    Não sou um grande fã de luta. Tirando boxe, eu nunca sei qual modalidade é qual. Vale tudo pra mim sempre foi uma novela e até esses dias, UFC era tão somente a Universidade Federal do Ceará. Mas nem se eu estivesse no meio do Atacama, sem contato com a civilização eu deixaria de saber quem é Anderson Siva, o campeão mundial (perdoem minha ignorância, mas o título é mundial, não?) da modalidade. O rapaz está em todas.

    Pois bem, apesar de não ter visto o tal chute que nocauteou o Viltor Belfort, soube que foi um golpe e tanto, que a luta foi o embate do século e essas coisas todas que a imprensa fala sobre campeões. Mas por que falar sobre um atleta cujo esporte não me é caro? Ora, porque apesar de ser pago pra dar pesadas e joelhadas no octógono, as entrevistas  dele na TV mostram que o homem é um poço de delicadeza. E não, não é da voz dele que estou falando. A fama repentina, aliada à natureza da luta-livre poderiam torná-lo um bad boy, orbitado por bebedeiras, namoradas descartáveis e brigas em boates. Mas Anderson Silva não vai a boates. Fora do mundo do UFC, é um pai de família que se diverte jogando video-game com os filhos e chama a mulher de namorada. Um fofo.

   De música brasileira eu entendo um pouco e gosto muito. E tiete que sou da Marisa Monte, fiquei surpreso e feliz com o clipe de Ainda Bem, em que a cantora troca uns passos de dança com ninguém menos que Anderson Silva. O Spiderman, com aquele tamanho, com aquela cara de quem vai dar uma pesada no nariz de alguém, dança. E dança bem, o danado. Sobre o clipe, a cantora disse: "Fiquei fascinada pelo fato dele ser The Champion e ter dança nos pés e os contrastes que isso sugere: força e delicadeza, peso e leveza". Taí, Marisa disse tudo, onde há força pode haver delicadeza. E com isso eu não estou pregando a falta de virilidade, pelo amor! Mas a delicadeza anda cada vez mais em extinção, num mundo onde todo mundo tem de se posicionar pra garantir o seu espaço, onde é preciso gritar para ser visto e onde confundem firmeza com falta de educação.

    Não condeno a objetividade, a personalidade forte, a impulsividade, todas essas qualidades, mas acho que a delicadeza, essa sumida, precisa ser resgatada em pequenos gestos, como um olhar, um elogio, um pedido de desculpas. E porque não, uns passos de dança de vez em quando?


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E quando a foto não sai bonita?



Recentemente eu li o livro Um dia, romance inglês de David Nicholls. Na verdade eu só me interessei porque foi recomendado pelo Nick Hornby e pelo Tony Parsons, dois dos meus autores preferidos, ambos ingleses. Pois eles estavam certos, o livro é delicioso, daqueles que a gente devora sem ver, e eu recomendo não só o livro  como também o filme que chega por aqui em novembro. A história é belíssima, sobre os desencontros de um casal ao longo de duas décadas e como o tempo muda essas pessoas. Mas o que me ligou ao livro foi uma frase. A certa altura, o narrador diz sobre o imaturo Dexter Morley: "ele queria viver a vida de tal modo que, se fosse fotografado ao acaso, a foto saísse bonita". Fiquei intrigado.

Sair bonito na foto é a glória de gente que quer aprovação. Gente que quer ser amado, causar uma boa impressão. Gente que quer sair na revista, de quem é flagrada "sem querer" de biquíni no Arpoador. Mas e quando a foto não sai bonita? Porque ninguém consegue ser a bailarina, daquela cantiga do Chico Buarque, que não tem pereba, nem lombriga, nem dente com comida, nem goteira no meio da cozinha... Resumindo, com exceção da bailarina, todo mundo tem aqueles momentos "zero glamour" em que nem posando dá uma foto decente.

A vida não é um comercial de refrigerante, onde tudo é glamouroso, as pessoas são bonitas com uma pele incrivelmente sedosa. No dia-a-dia tem fila de banco interminável, onde a gente pragueja internamente a cada velhinho que aparece pra furar a fila. Tem aquela fechada no trânsito, que te obriga a falar aquele palavrão a trocentos decibéis. Aquela pisada no cocô do cachorro na calçada. Aquele calor infernal que rende uma pizza em baixo do braço. A moeda que cai em baixo do balcão, a bebida derramada na camisa branca. Isso dá uma foto boa?

Depois de muito matutar, eu, que nunca saio bem na foto, cheguei a uma conclusão: a foto só sai bonita quando se olha bonito pra ela. Simplista? Nem tanto. Todo mundo aí morre de dar risada ao ver fotos antigas, não? As roupas cafonas, os cabelos pavorosos as situações constrangedoras... Mas ao rever parece que a gente desculpa aquelas pessoas das fotos, que eram tão jovens, nem eram tão gordas assim, olha esses sorrisos, tão puros.

Eu definitivamente nunca vou sair bem na foto, nem se eu posasse pra Anne Leibovitz. Me sinto desconfortável, sempre fecho o olho na hora, um desastre. Mas eu decidi ser mais condescendente comigo. Uma foto é só um instante, sem antes, sem depois. Se alguém achar que nesse mísero segundo eu pareço alguém legar, ok, se me achar um monstrinho saído de um clipe da Gaga, paciência. Eu quero viver a vida de modo que se for fotografado ao acaso, não saia no Ego. O resto é lucro.